FASCINAÇÃO
Matheus Simões
Era por volta das 20h quando
Helena foi subitamente interceptada por um rapaz que bem à sua frente pedia-lhe
uma esmola, no Bairro de Copacabana. Magro, baixo, cabelos crespos e pele
ressecada; este era o perfil daquele rapaz que, fosse loucura ou não, debruçou-se
ao ombro da pobre Helena depois de olhar para a correntinha que ela usava. Naquele momento ele tinha visto
estampado, de letras maiúsculas, o nome da moça. Helena era também o nome da mãe do rapaz, que, por sinal, havia falecido
há dois meses. Encarando-a, por um instante, e vendo o nervosismo da pobre
garota, o rapaz fez algo inusitado: beijou-lhe a face.
A moça, confusa, indagou-lhe:
-
Moço, por que tal atitude?
Após
um bom tempo, a voz trêmula do rapaz ressoou.
-
Moça...
-
Helena, pode chamar-me de Helena.
-
Isso! Helena! Foi justamente por causa disto. Helena também era o nome da minha
pobre mãe, que Deus a tenha. Vi estampado em tua corrente esse nome e não me
contive.
-Rapaz...
- Pedro, pode chamar-me
de Pedro.
- Pois bem, Pedro, e
por que essa revolta?
- Ah, a vida! Como ela
é dura e cruel.
-
Talvez seja nós quem complicamos.
-
Achas justo, então, que alguém que você ame vá embora sem ao menos dizer adeus?
Com lágrimas no rosto,
Pedro lembrava dos bons momentos que vivera com sua pobre mãe; senhora baixa,
voz trêmula, sempre com um sorriso nos lábios, mas um rio transbordando em seu
coração.
- Tens noção, Helena,
do que é você ser um filho adotivo, que aos oito meses foi deixado por alguém
em uma porta, ser criado por uma mulher maravilhosa e de repente, perdê-la?
Helena o olhava.
Naquele momento ela não conseguia conter as lágrimas, principalmente ao ouvir
que Pedro, quando criança, presenciou, por várias vezes, seu pai espancando sua
mãe.
Indagou Pedro.
- Pobre Estela...
- Quem é Estela, Pedro?
- Minha irmãzinha que
foi carregada aos seis meses de idade...
- Nossa! Vida dura essa
sua.
Os dois adiantaram os
passos, e tão longa foi essa conversa que durou três dias. Foram três dias de
encontro que se transformaram numa linda paixão. A fascinação tomou de conta
daqueles jovens.
Três meses passaram-se,
tudo ia muito bem. Pedro e Helena , agora, eram muito mais que amigos. A
felicidade tomava de conta daquelas criaturas que, acredite: tinham nascido um
para o outro, ou pelo menos, parecesse isso.
Um dia, estando os dois
a passear à beira-mar, abraçaram-se, beijaram-se... Ele com suas feições,
agora, bem compostas; ela com cabelos lindos, lisos e pretos. Foi um beijo tão
doce, frio, singelo, que fez uma jovem que os olhava há bastante tempo correr
desesperadamente.
Naquele mesmo dia um
jurou ao outro amor eterno e prometeram-se muita longevidade em seus dias de
vida.
Foram para casa, ela
para a sua e ele para a dele, por enquanto... Digo isso porque já havia, sim, a
pretensão por parte de ambos de um futuro casamento.
Amanheceu, as aves a
voar por aquele céu azulado, enfim, o dia perfeito para um almoço romântico
entre eles. Pedro e Helena resolveram ir almoçar juntos. Durante a refeição, a
mesma moça que os observava na praia, estava lá, no restaurante, bem próxima à
mesa dos pombinhos.
Juras de amor, papo
vai, papo vem, carícias e mais carícias, até que surge o tão esperado momento:
Pedro decide entregar o anel de noivado para Helena. A garota que os observava,
chorava compulsivamente. Por que tudo aquilo? O que haveria de passar na mente
daquela criatura?
Enquanto Pedro noivava
com Helena, prometeu-lhe o seguinte: que o amor deles só seria separado pela
morte, e se eternidade realmente existisse, nem a morte acabaria com esse amor.
Ao ouvir o juramento, a moça que os olhava, atentamente, sussurrou baixinho
para si mesma:
- Não, não pode ser...
Dizendo isso,
levantou-se, deu alguns passou até a mesa do casal, mas hesitou. Voltou, pegou
sua bolsa, pagou a conta e foi embora.
Ali, naquele
restaurante, restavam apenas, além dos funcionários, o casal apaixonado e os
seus juramentos.
Enquanto isso, a garota
misteriosa andava perturbada pelas Ruas de Copacabana, não sabia o que fazer
para reverter toda aquela situação, que a preocupava bastante e não a deixava
dormir. Será que valeria a pena abrir o jogo? Não seria a moça o pivô de toda
história?
Parou um ônibus,
entrou, encostou a cabeça na janela e começou a pensar naquela cena de
juramento.
Os dias iam se
passando, tudo ia bem, começaram os preparativos para o casamento. Ao entrar na
casa de Helena, certa noite, Pedro e Helena foram surpreendidos por uma
cartinha que tinha sido deixada por baixo da porta. A carta era anônima, uma
letra perfeita, invejável, e nela uma voz dizia:
- Nada melhor que um
amor verdadeiro, isto é verdade, a mais pura verdade! Mas não apressem em
casar-se, escutem-me bem, não apressem! Caso queiram mais informações, estarei
à disposição para conversarmos e eu abrirei todo o jogo. Espero-vos no mesmo
local que ontem estiveram à noite.
A curiosidade
apossou-se da mente daquele casal. Amavam-se, juraram amor eterno, e agora uma
notícia dessas! O que fariam eles?
No outro dia, pegaram
de um ônibus, foram ao mesmo restaurante e antes mesmo de adentrarem o local lá
estava aquela garota, a mesma que enviou uma carta anônima aos pombinhos.
O que eles menos
esperavam agora veio à tona, e todos aqueles juramentos de amor eterno? E as
promessas feitas? E os beijos que foram dados?
Tudo isso foi em vão,
pois ao ter chegado naquele local, Helena acabara de descobrir que na verdade
nunca foi Helena, Helena, na verdade, era Estela.
Sem chão, o casal saiu
desesperado.
A garota que revelara
todo o mistério era uma das irmãs do rapaz Pedro, a qual foi entregue a uma
família burguesa. Durante um bom tempo procurou descobrir suas origens e acabou
descobrindo tudo e mais um pouco.
Em busca do mar, e
cumprindo a promessa que um dia fizera um ao outro, Pedro e Helena beijaram-se
e com um forte grito expressaram tudo o que sentiam:
-ETERNIDADE! EIS O
NOSSO JURAMENTO QUE UM DIA FOI FEITO
Atiraram-se de mãos
dadas.
Na praia, apenas o
barulho da noite...
E ali, apenas um
ensinamento: “De tudo ao meu amor serei atento.”