terça-feira, 14 de julho de 2015

FASCINAÇÃO

FASCINAÇÃO
Matheus Simões


 Era por volta das 20h quando Helena foi subitamente interceptada por um rapaz que bem à sua frente pedia-lhe uma esmola, no Bairro de Copacabana. Magro, baixo, cabelos crespos e pele ressecada; este era o perfil daquele rapaz que, fosse loucura ou não, debruçou-se ao ombro da pobre Helena depois de olhar para a correntinha que ela  usava. Naquele momento ele tinha visto estampado, de letras maiúsculas, o nome da moça. Helena era também o nome da  mãe do rapaz, que, por sinal, havia falecido há dois meses. Encarando-a, por um instante, e vendo o nervosismo da pobre garota, o rapaz fez algo inusitado: beijou-lhe a face.
A moça, confusa, indagou-lhe:
- Moço, por que tal atitude?

Após um bom tempo, a voz trêmula do rapaz ressoou.

- Moça...
- Helena, pode chamar-me de Helena.
- Isso! Helena! Foi justamente por causa disto. Helena também era o nome da minha pobre mãe, que Deus a tenha. Vi estampado em tua corrente esse nome e não me contive.
-Rapaz...
- Pedro, pode chamar-me de Pedro.
- Pois bem, Pedro, e por que essa revolta?
- Ah, a vida! Como ela é dura e cruel.
- Talvez seja nós quem complicamos.
- Achas justo, então, que alguém que você ame vá embora sem ao menos dizer adeus?

Com lágrimas no rosto, Pedro lembrava dos bons momentos que vivera com sua pobre mãe; senhora baixa, voz trêmula, sempre com um sorriso nos lábios, mas um rio transbordando em seu coração.
- Tens noção, Helena, do que é você ser um filho adotivo, que aos oito meses foi deixado por alguém em uma porta, ser criado por uma mulher maravilhosa e de repente, perdê-la?
Helena o olhava. Naquele momento ela não conseguia conter as lágrimas, principalmente ao ouvir que Pedro, quando criança, presenciou, por várias vezes, seu pai espancando sua mãe.
Indagou Pedro.
- Pobre Estela...
- Quem é Estela, Pedro?
- Minha irmãzinha que foi carregada aos seis meses de idade...
- Nossa! Vida dura essa sua.
Os dois adiantaram os passos, e tão longa foi essa conversa que durou três dias. Foram três dias de encontro que se transformaram numa linda paixão. A fascinação tomou de conta daqueles jovens.
Três meses passaram-se, tudo ia muito bem. Pedro e Helena , agora, eram muito mais que amigos. A felicidade tomava de conta daquelas criaturas que, acredite: tinham nascido um para o outro, ou pelo menos, parecesse isso.
Um dia, estando os dois a passear à beira-mar, abraçaram-se, beijaram-se... Ele com suas feições, agora, bem compostas; ela com cabelos lindos, lisos e pretos. Foi um beijo tão doce, frio, singelo, que fez uma jovem que os olhava há bastante tempo correr desesperadamente.
Naquele mesmo dia um jurou ao outro amor eterno e prometeram-se muita longevidade em seus dias de vida.
Foram para casa, ela para a sua e ele para a dele, por enquanto... Digo isso porque já havia, sim, a pretensão por parte de ambos de um futuro casamento.
Amanheceu, as aves a voar por aquele céu azulado, enfim, o dia perfeito para um almoço romântico entre eles. Pedro e Helena resolveram ir almoçar juntos. Durante a refeição, a mesma moça que os observava na praia, estava lá, no restaurante, bem próxima à mesa dos pombinhos.
Juras de amor, papo vai, papo vem, carícias e mais carícias, até que surge o tão esperado momento: Pedro decide entregar o anel de noivado para Helena. A garota que os observava, chorava compulsivamente. Por que tudo aquilo? O que haveria de passar na mente daquela criatura?
Enquanto Pedro noivava com Helena, prometeu-lhe o seguinte: que o amor deles só seria separado pela morte, e se eternidade realmente existisse, nem a morte acabaria com esse amor. Ao ouvir o juramento, a moça que os olhava, atentamente, sussurrou baixinho para si mesma:
- Não, não pode ser...
Dizendo isso, levantou-se, deu alguns passou até a mesa do casal, mas hesitou. Voltou, pegou sua bolsa, pagou a conta e foi embora.
Ali, naquele restaurante, restavam apenas, além dos funcionários, o casal apaixonado e os seus juramentos.
Enquanto isso, a garota misteriosa andava perturbada pelas Ruas de Copacabana, não sabia o que fazer para reverter toda aquela situação, que a preocupava bastante e não a deixava dormir. Será que valeria a pena abrir o jogo? Não seria a moça o pivô de toda história?
Parou um ônibus, entrou, encostou a cabeça na janela e começou a pensar naquela cena de juramento.
Os dias iam se passando, tudo ia bem, começaram os preparativos para o casamento. Ao entrar na casa de Helena, certa noite, Pedro e Helena foram surpreendidos por uma cartinha que tinha sido deixada por baixo da porta. A carta era anônima, uma letra perfeita, invejável, e nela uma voz dizia:
- Nada melhor que um amor verdadeiro, isto é verdade, a mais pura verdade! Mas não apressem em casar-se, escutem-me bem, não apressem! Caso queiram mais informações, estarei à disposição para conversarmos e eu abrirei todo o jogo. Espero-vos no mesmo local que ontem estiveram à noite.
A curiosidade apossou-se da mente daquele casal. Amavam-se, juraram amor eterno, e agora uma notícia dessas! O que fariam eles?
No outro dia, pegaram de um ônibus, foram ao mesmo restaurante e antes mesmo de adentrarem o local lá estava aquela garota, a mesma que enviou uma carta anônima aos pombinhos.
O que eles menos esperavam agora veio à tona, e todos aqueles juramentos de amor eterno? E as promessas feitas? E os beijos que foram dados?
Tudo isso foi em vão, pois ao ter chegado naquele local, Helena acabara de descobrir que na verdade nunca foi Helena, Helena, na verdade, era Estela.
Sem chão, o casal saiu desesperado.
A garota que revelara todo o mistério era uma das irmãs do rapaz Pedro, a qual foi entregue a uma família burguesa. Durante um bom tempo procurou descobrir suas origens e acabou descobrindo tudo e mais um pouco.
Em busca do mar, e cumprindo a promessa que um dia fizera um ao outro, Pedro e Helena beijaram-se e com um forte grito expressaram tudo o que sentiam:
-ETERNIDADE! EIS O NOSSO JURAMENTO QUE UM DIA FOI FEITO
Atiraram-se de mãos dadas.
Na praia, apenas o barulho da noite...
E ali, apenas um ensinamento: “De tudo ao meu amor serei atento.”